Importância do Selênio na Terapia Nutricional
10/05/2011
Carmem Maldonado Peres - Farmacêutica do Suporte Técnico Científico da Farmoterápica

Informações técnicas e clínicas

O selênio encontra-se em sua forma ativa associado à cisteína e metionina (selenocisteína e selenometionina) sendo componente essencial das selenoproteínas, (ex.: selenoproteína P, glutationa peroxidase – GSHPx, etc.). (1,2,3) Assim como outros oligoelementos, o selênio tem importância no mecanismo do sistema de defesa antioxidante do organismo.

O selênio é absorvido principalmente no duodeno (80%). As formas orgânicas de selênio da dieta (selenometionina e selenocisteína) são 100% absorvidas. Já as formas inorgânicas (selenito ou selenato), são absorvidas entre 50 e 100%. O transporte para a corrente sangüínea é dependente de ligação às proteínas. (1)

Grande parte da excreção do selênio é feita pela urina (entre 50 a 60% em adultos). Em algumas situações, formas voláteis do selênio podem ser excretadas pela respiração. (1,3)

Classicamente, as doenças de Kashin-Beck e de Keshan estão associadas à deficiência de selênio. A doença de Keshan é uma cardiomiopatia que ocorre em crianças e em mulheres durante a gravidez e parto. A doença de Kashin-Beck é uma osteoartrite endêmica que ocorre na adolescência. (2,3) Além dessas patologias, o uso de nutrição parenteral sem selênio, especialmente por períodos prolongados, pode causar deficiência deste oligoelemento. As doses recomendadas de selênio para uso na nutrição parenteral foram divulgadas pela A.S.P.E.N. (4)

Alguns sintomas decorrentes da deficiência de selênio foram evidenciados: dor muscular, fraqueza e cardiomiopatia. (1,2)

A toxicidade causada pelo excesso de selênio resulta em perda de cabelo, alterações nas unhas, lesões na pele, náusea, fadiga e irritabilidade. (1,2)

Nos pacientes críticos a concentração plasmática de selênio geralmente diminui e é comum estar associada com danos teciduais, infecções, síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS), disfunção e falência dos órgãos e aumento da mortalidade em UTI. (5,6)

Em um estudo de meta-análise foi observado um possível benefício da utilização do selênio em pacientes críticos. (7,8) Em outro, a suplementação com selênio (seja em bolus ou em infusão contínua) foi bem tolerada e promoveu um aumento na concentração plasmática de selênio e atividade das selenoenzimas antioxidantes. (9)

Um estudo multicêntrico, randomizado foi realizado em 249 pacientes com a síndrome de resposta inflamatória sistêmica severa, sepse e choque séptico. A administração de altas doses (1000 mcg) de selênio em bolus (30 min) seguida de infusão contínua (14 dias) promoveu um retorno da concentração de selênio plasmática e da atividade da glutationa peroxidade-3 aos parâmetros normais durante o tratamento. Comparados ao placebo os pacientes que receberam selênio tiveram redução da taxa de mortalidade. (10) Esses resultados corroboram com outros trabalhos que relacionam os benefícios da suplementação de selênio para pacientes críticos, desde que em altas doses. Doses maiores que 500 mcg/dia mostraram uma tendência na redução da mortalidade.11 Doses diárias entre 800 e 1000 mcg/dia foram consideradas adequadas para pacientes críticos. (10,12,13)

Recomendações

A dose de selênio recomendada para uso na nutrição parenteral varia de acordo com a faixa etária. A solução disponível para a prescrição é composta por 6 mcg/mL de selênio obtido a partir do ácido selenioso (uma das possíveis fontes de selênio). (8) As doses recomendadas pela A.S.P.E.N. de acordo com a idade e peso estão resumidas na tabela abaixo.

Neonatos Pré-Termos < 3kg (mcg/kg/dia)

Neonatos a Termo (3 a 10kg) (mcg/kg/dia)

Crianças de 10 a 40kg (mcg/kg/dia)

Adolescentes > 40kg (mcg/dia)

Adulto (mcg/dia)

1,5-2

2

1 a 2

40 a 60

20 a 60

A.S.P.E.N. - Safe Practices for Parenteral Nutrition - JPEN 28 (6): S39-70, 2004. (4)

Referências Bibliográficas

1 - Burk RF and Levander OA. Selenium In: Modern Nutrition in Health and Disease. 10th ed. Shils ME et al., Lippincott Williams & Wilkins, 2006, 312-325.
2 - Matarese LE, Gottschlich MM. Contemporary Nutrition Support Practice. A Clinical Guide. United States of America, 1998.
3 - Basics in Clinical Nutrition, Edited for ESPEN Courses. 3nd ed. 2004.
4 - A.S.P.E.N. Safe Practices for Parenteral Nutrition - JPEN 28(6): S39-70, 2004.
5 - Sakr Y, Reinhart K, Bloos F, Marx G, Russwurm S, Bauer M, Brunkhorst F. Time course and relationship between plasma selenium concentrations, systemic inflammatory response, sepsis, and multiorgan failure. Br J Anaesth. 2007 Jun;98(6):775-84. Epub 2007 May 3.
6 - Manzanares CW. Selenium in critically ill patients with systemic inflammatory response. Nutr Hosp. 2007 May-Jun; 22(3):295-306.
7 - Heyland D and Dhaliwal R. Immunonutrition in the critically ill: from old approaches to new paradigms. Intensive Care Med (2005) 31:501–503.
8 - Jones NE and Heyland DK. Pharmaconutrition: a new emerging paradigm. Current Opinion in Gastroenterology 2008, 24:215–222.
9 - Manzanares W, Hardy G. Selenium supplementation in the critically ill: posology and pharmacokinetics. Curr Opin Clin Nutr Metab Care 2009 May;12(3):273-80.
10 - Angstwurm MW, Engelmann L, Zimmermann T, Lehmann C, Spes CH, Abel P, Strauss R, Meier-Hellmann A, Insel R, Radke J, Schüttler J, Gärtner R. Selenium in Intensive Care (SIC): results of a prospective randomized, placebo-controlled, multiple-center study in patients with severe systemic inflammatory response syndrome, sepsis, and septic shock. Crit Care Med. 2007 Jan; 35(1):118-26.
11 - Heyland DK, Dhaliwal R, Suchner U, Berger M. Antioxidant nutrients: a systematic review of vitamins and trace elements in the critically ill patient. Int Care Med 2005, 31:327-337.
12 - Heyland DK, Dhaliwal R, Day AG. Muscedere J, Drover J, Suchner U, Cook D, Canadian Critical care Trials Group: Reducing Deaths due to Oxidative Stress (The REDOX Study): rationale and study design for a randomized trial of glutamine and antioxidant supplementation in critically-ill patients. Proc Nutr Soc 2006, 65:250-263.
13 - Heyland DK. Selenium supplementation in critically ill patients: can too much of a good thing be a bad thing? Crit Care. 2007; 11(4):153.
14 – Martindale. The Complete Drug Reference. 35th ed. Sweetman SC. Pharmaceutical Press, London, 2007, p.1799.

Leitura complementar

- Berger MM, Cavadini C, Chiolero R, Dirren H. Copper, selenium, and zinc status and balances after major trauma. J Trauma. 1996 Jan; 40 (1): 103 - 109.
- Cunha S, Albanesi Filho FM, Bastos VLFC, Antelo DS, Souza MM. Níveis de tiamina, selênio e cobre em pacientes com cardiomiopatia dilatada idiopática em uso de diuréticos.
Arq Bras Cardiol, vol 79 (5) p. 454 - 459, 2002. Davis AT, Franz FP, Courtnay DA, Ullrey DE, Scholten DJ, Dean RE. Plasma vitamin and mineral status in Home Parenteral Nutrition patients. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 1987. 11 (5): 480 - 485.
- Koo WWK, Tsang RC. Mineral requirements of low-birth-weight infants. J Am Col. Nutr. 1991. 10 (5): 474 - 486. Misra S, Kirby DF. Micronutrient and trace element monitoring in adult nutrition support. NCP Nutr Clin Practr. 2000 15: 120 - 126.
- Rombeau JL, Rolandeli RH. Clinical Nutrition: Parenteral Nutrition 3rd ed. Philadelphia, WB Saunders, 2001.

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